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Specialisterne Foundation

Specialisterne Foundation is a not-for-profit foundation with the goal to generate meaningful employment for one million autistic/neurodivergent persons through social entrepreneurship, corporate sector engagement and a global change in mindset.

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Os especialistas. Abraçando meu Autismo: uma Jornada de Autodescobrimento e Aceitação

set 13, 2024

“[…] de acordo com os resultados dos testes administrados, você está dentro do espectro autista.” Eu lembro bem dessas palavras e eu acredito que nunca vou esquecê-las. Eu estava com medo, surpresa e ao mesmo tempo uma parte de mim disse: “você sempre soube disso.” Eu lutei para aceitar, não que ser autista fosse algo negativo ou algo de se sentir vergonha, mas porque eu tinha a sensação de não ser autista o suficiente.

Uma de muitas recomendações que eu recebi do especialista que me diagnosticou foi seguir mulheres autistas na rede social, especialmente aquelas que, como eu, passam despercebidas durante a primeira parte de suas vidas. Eu segui vários perfis diferentes, e foi assim que me cruzei com a página ‘Histórias Cotidianas’. É um perfil de uma mulher autista que organizou o primeiro Congresso Autista Ibero-Americano (em que eu me atendi). Um dia essa pessoa compartilhou uma história sobre Specialisterne México que me chamou a atenção, que tem o foco em parte da minha vida que me deu as maiores dificuldades: trabalho.

Quando vi que eram elas que estavam gerenciando o projeto de inclusão na IBM Guadalajara (que eu sabia algo a respeito antes de eu receber meu diagnóstico, porque alguém próximo de mim trabalhou lá em me contou a respeito), eu percebi que eu tinha que seguir e ficar informada; talvez eu iria achar uma oportunidade com eles no futuro.

 

Desafios e Obstáculos no Ambiente de Trabalho

Trabalhar foi uma das áreas em que me trouxe mais dificuldade. Por um tempo, eu perdi toda a esperança de conseguir crescer na carreira em que eu tinha escolhido, porque não só eu tive que encarar as dificuldades no mercado de trabalho atual, como eu também teria que suportar aquelas que minha condição poderia trazer. Perguntar por acomodações de trabalho não era uma opção, além de estar acostumada em suprimir minhas necessidades, eu continuei a pensar que isso não era tão ruim e que eu apenas tinha que ser forte. Vamos também acrescentar que há discriminação contra pessoas autistas nos ambientes de trabalho. Eu conheço autistas que perderam seus empregos depois de divulgar seus diagnósticos no trabalho, e apesar de ser ilegal, muitas vezes isso se passa impune por medo de enfrentar um processo complexo como ação judicial e possivelmente perdê-lo.

O dia que eu vi uma postagem do Instagram pela Specialisterne México sobre uma vaga aberta para Designer de Inovação em Embalagens, eu não pude acreditar, especialmente porque não teria que me mudar para tão longe da minha família se eu fosse selecionada. Parecia ser um projeto feito justamente para mim.

No entanto, a felicidade que senti diminuiu por duas razões: se eu fosse selecionada para o treinamento, eu teria que deixar o emprego que já tinha. E havia o risco de não ser selecionada e acabar sem emprego. Os processos seletivos podem ser muito difíceis para pessoas autistas. Desde ser mal julgado por não suprimir comportamentos repetitivos e por não manter contato visual durante a entrevista, até testes psicométricos projetados para pessoas neurotípicas.

 

Você não é Autista o suficiente

Além disso, eu sentia que estava tirando a oportunidade de alguém que precisava mais do que eu. Apesar das minhas dificuldades com tudo relacionado ao trabalho, consegui me integrar em diferentes empresas, ao contrário de muitas outras pessoas autistas. Novamente, a síndrome do impostor, o pensamento de não ser autista o suficiente, me assombrava, o que é bastante comum entre pessoas autistas diagnosticadas na idade adulta.

Estive muito perto de perder a oportunidade, mas foi minha psicóloga quem me convenceu. Ela me disse que eu não só deveria correr o risco e tentar, como também tinha todo o direito de me candidatar a essas oportunidades. Foi assim que eu preenchi o formulário e enviei os documentos exigidos. Eu nem esperava ser selecionada para uma entrevista, então me convenci a não criar muitas expectativas. Lembro-me de receber uma mensagem da Specialisterne no meu telefone perguntando se eu compareceria à entrevista naquele dia, pois tinham me enviado um e-mail e não tinham recebido minha confirmação. Eu entrei em um tipo de choque, mas rapidamente consegui sair disso e respondi que sim, eu estava disponível.

Mesmo que a pessoa que me entrevistou tenha sido muito respeitosa, admito que me senti um pouco estranha ao falar tão explicitamente sobre ser autista. Eu mal havia verbalizado isso com pessoas muito próximas, e algumas experiências desagradáveis ao revelá-lo me fizeram decidir mantê-lo em segredo. Mas foi libertador fazê-lo, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.

A Specialisterne me informou que, além daquela entrevista, eles decidiriam quem participaria do treinamento com uma sessão prática. Lembro-me de ter sido a pessoa que levou mais tempo para terminar, e nem tinha certeza se tinha feito um bom trabalho. Fiz o que sabia e da maneira que estava acostumada. Quando me informaram que dariam um retorno no dia seguinte, entrei em algo muito parecido com pânico (não consigo definir exatamente), mas eu disse: pelo menos eu tentei.

Receber a notícia de que eu tinha sido selecionada para o treinamento me deixou emocionada, eu não achava que chegaria tão longe. Meu objetivo era dar o meu melhor, mas ao mesmo tempo, a ansiedade e a negatividade voltaram. O treinamento era algo novo, pois eu passaria algumas semanas com outros adultos autistas. Além de algumas interações em comentários nas redes sociais, nunca havia tido uma oportunidade como essa.

 

Superando a Síndrome do Impostor:

Conhecer cada uma daquelas pessoas foi uma experiência incrível, pois éramos diferentes, mas ao mesmo tempo semelhantes. Compartilhamos medos, desafios, dúvidas e histórias de vida. Uma coisa que levo comigo dessas semanas de treinamento é que, graças a essa convivência, superei a síndrome do impostor em relação ao meu diagnóstico de autismo.

O coaching também foi uma experiência nova. Eu sabia que não era terapia psicológica, mas, além disso, não tinha muita ideia do que esperar. No entanto, me senti confortável, ouvida e, acima de tudo, validada. Minhas preocupações, dúvidas e inseguranças foram consideradas e, ao mesmo tempo, recebi conselhos valiosos e ferramentas para aplicar no futuro.

Nos dias que antecederam o feedback final e o anúncio de quem tinha sido selecionado, eu estava muito ansiosa. Considerei as várias possibilidades e razões para essa decisão: o que me faltava; o que eu poderia ter feito melhor; o que aprendi com essa experiência… e a pergunta: será que coisas tão boas podem acontecer comigo?

 

 

 

Um Novo Começo:

Nos momentos antes de receber o feedback dos gestores desta empresa e da equipe da Specialisterne, eu falei para mim mesma: aceite o que vier e seja grata por ter chegado até aqui. Lembro-me claramente das palavras com as quais me comunicaram a notícia, vou guardá-las na memória, no mesmo canto onde guardo aquelas com as quais me informaram sobre meu diagnóstico.

“[…] Tenho que te dar uma notícia ruim, você terá que se mudar para a Cidade do México, porque você foi selecionada.”

Não estou mentindo quando digo que quase pulei de alegria na frente deles. Sou um pouco (muito) expressiva. Não conseguia acreditar. Agradeci interiormente às pessoas que me apoiaram para chegar aonde estou, àquelas que me motivaram a continuar, e também à Smurfit Westrock e à Specialisterne por acreditarem em mim.

Os dias seguintes foram dedicados à procura de um apartamento, ao preparo mental para o que seria minha nova rotina e também ao descanso, porque eu merecia. Merecia por ter deixado para trás meus medos e paranoias, por ter tentado e não desistido.

Continuo o processo de aceitação do meu diagnóstico. Faço isso muito melhor do que antes, mas ainda tenho um caminho a percorrer. Convido cada pessoa autista que lê isso a não só se candidatar aos projetos da Specialisterne, mas a aceitar todas as acomodações que nos são oferecidas com o objetivo de interagir melhor com um mundo que não foi feito para nós. Seus desafios e traços autistas são válidos. Você merece trabalhar com dignidade e receber as acomodações necessárias, assim como viver neste mundo sem se sentir uma pessoa defeituosa.

Recentemente, me juntei à equipe da minha nova empresa, estou no processo de adaptação e acho que está indo bem. O próximo passo é seguir em frente, dando o meu melhor e aprendendo a cada dia a me aceitar como sou.

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