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Mulheres autistas em profissões STEM

mar 24, 2023

Para começar este artigo, gostaria de apresentar a vocês alguns dados bastante surpreendentes: dos 2.095 bilionários que existem no mundo, segundo a lista Forbes, somente 244 são mulheres; enquanto o número de diretores de empresas do IBEX 35, existe apenas 30% de cargos ocupados por mulheres, e, desde que o Prêmio Nobel foi fundado, em 1901, apenas 57 mulheres o receberam, em comparação com 873 homens.

 

O feminismo conseguiu grandes avanços, e, de alguma maneira, estão conseguindo mudanças positivas em questões preocupantes como o teto de vidro ou a disparidade salarial entre gêneros, porém, diante de dados como os acima, devemos insistir veementemente nesta afirmação: ainda existe muita discriminação contra as mulheres em todas as áreas, e, inclusive, parece que estes obstáculos se acentuam se falamos de carreiras e profissões STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

 

Na Espanha, de acordo com o Livro Branco das Mulheres na Área Tecnológica, o número de mulheres matriculadas no STEM não supera 37%, e, ainda pior, somente 16% dos profissionais STEM são mulheres. Esse último dado é muito significativo, pois que nos informa de um rompimento, de uma renúncia ou abandono (21% dessas estudantes ficam pelo caminho, não sabem ou não querem lutar contra o machismo no trabalho, a falta de reconhecimento, os obstáculos na conciliação familiar), de um acesso muito complicado ao mercado de trabalho STEM para as mulheres.

 

No entanto, assim que entram na universidade, seu desempenho acadêmico parece ser maior que o dos homens, e suas taxas de abandono são inferiores. Portanto, parece claro que o problema não é uma questão de capacidade ou de falta de constância nos estudos, mas sim que os obstáculos para as mulheres acessarem o mercado de trabalho STEM são diversos, e estão mais relacionados com a desigualdade de oportunidades e outras formas sutis (e nem tanto) de exclusão social.

 

Por que não existem mulheres no STEM?

 

Já dizemos que as causas dessa escassez de mulheres no STEM respondem a múltiplas causas muito variadas, mas podemos analisar algumas delas. Culturalmente, o papel da mulher sempre esteve vinculado às tarefas domésticas, aos cuidados e ao ensino, e, portanto, é compreensível que, ainda hoje, as meninas e as adolescentes sigam priorizando carreiras de educação, ciências sociais, artes e humanidades (nesta ordem).

 

O estudo «Why don’t more girls choose to pursue a science career?», elaborado pela OCDE, aponta para outros motivos, além da influência dos papéis de gênero tradicionais: a autopercepção das mulheres sob a perspectiva de estudar uma carreira científica (acreditam não são capazes, em grande parte, por escutarem muitas vezes que não são) ou a influência do ambiente familiar e educacional.

 

Também são muito indicativos a famosa Síndrome do Impostor, a ausência quase total de referências femininas de sucesso no campo da ciência, os estereótipos de gênero e a competitividade na área STEM (e o menosprezo dos homens assim que veem uma parceira, a quem não consideram capaz de “estar à altura”) ou a falta de reconhecimento (através de um salário digno, mas também de ascensões, de ter as mesmas oportunidades de acessar cargos de diretoria).

 

Por fim, destaca-se um conceito muito interessante chamado “gráfico de tesouras”; este faz referência ao fato de que as mulheres acessam posições baixas e precárias no STEM, e, à medida que falamos de trabalhos muito bem pagos e reconhecidos, os homens vão ocupando esses espaços. Isso pode explicar o fato de que, quanto mais avançamos na carreira profissional, mais as mulheres encontram dificuldades para prosperar, especialmente se querem ter filhos ou se seus companheiros ou superiores diretos não acreditam em suas capacidades.

 

Para reverter essa situação, existem algumas iniciativas que, embora ainda sejam insuficientes, parecem levar a sério o fato de aumentar a participação das mulheres no STEM. Algumas delas consistem em melhorar as políticas de conciliação (flexibilidade horária nos diferentes cargos, possibilitar o teletrabalho etc.), eliminar os preconceitos de gênero nos estudos e neutralizar os conteúdos das carreiras científicas, tornando-as atraentes para todos, oferecendo um ambiente escolar e profissional adequado e inclusivo, desenvolver as competências de gestão das mulheres e dando maior visibilidade às referências femininas em carreiras STEM.

 

Há mais mulheres autistas no STEM?

 

Praticamente não existem estudos que falem de mulheres autistas no mercado de trabalho, e é ainda mais complicado encontrar dados que nos orientem sobre áreas específicas de especialização, mas parece difícil que as mulheres autistas possam acessar facilmente a trabalhos STEM; além das barreiras que encontram ao longo de suas carreiras simplesmente por ser mulheres, tal como explicamos anteriormente, terão que lidar com ambientes não adaptados a suas necessidades (excesso de estímulos, desafios sociais confusos, etc.) e a equipes competitivas e pouco inclusivas ou respeitosos com a diferença.

 

No entanto, é muito provável que as mulheres autistas cheguem à idade adulta com problemas de saúde mental e com autoestima baixa e extremamente prejudicada (pelo excesso de masking ou negligências profissionais), e isso diminuirá sua capacidade para reivindicar seu direito a pertencer ao mercado de trabalho STEM, para defender seu valor e sua capacidade, a lutar diariamente contra a opressão sistêmica cis-hétero-patriarcal.

 

No entanto, apesar dessa ausência notória de artigos ou estudos sobre mulheres autistas no STEM, existem alguns fatos interessantes a serem destacados. De acordo com um experimento recente realizado na Inglaterra, com mais de meio milhão de participantes, as pessoas (tanto homens como mulheres) que trabalham em profissões científicas são mais propensas a terem características autistas. Ou seja, os autistas são, comparativamente, as pessoas que mais se especializam no STEM. Habilidades como a atenção aos detalhes, a memória a longo prazo ou o perfeccionismo os fazem especialmente competentes no desempenho de carreiras STEM.

 

Além disso, em um estudo similar da Universidade de Cambridge, os homens, em média, tiveram pontuações mais baixas que as mulheres em empatia, e as mulheres tiveram qualificações mais baixas em sistematização e características autistas. Essas diferenças de gênero em termos de sistematização, entretanto, foram reduzidas nos autistas, já que as mulheres aumentaram sua pontuação. O que podemos extrair disso? Que as mulheres autistas, em comparação com as neurotípicas, apresentam pontuações mais altas em tarefas de sistematização e atenção aos detalhes, com isso podemos inferir que existe a possibilidade de que sejam mais eficientes em trabalhos STEM, que requerem uma grande capacidade de organização, de meticulosidade, de perfeccionismo. Mas é pouco precipitado tirar conclusões desse tipo; precisamos de mais estudos e dados estatísticos sobre mulheres autistas.

 

Montse Bizarro, Specialisterne España

 

Bibliografia

 

Greenberg D M, Warrier V, Allison C, Baron-Cohen S et al. (2018). Testing the Empathizing–Systemizing theory of sex differences and the Extreme Male Brain theory of autism in half a million people. Edited by Leda Cosmides, University of California, Santa Barbara, CA, and accepted by Editorial Board Member Michael S. Gazzaniga.

 

Mateos S., y Gómez C (2019): Libro Blanco de las mujeres en el ámbito tecnológico. Madrid: Secretaría de Estado para el Avance Digital, Ministerio de Economía y Empresa.

 

Mostafa, T. (2019): «Why don’t more girls choose to pursue a science career?», PISA in Focus, 93, OECD Publishing.

 

OCDE (2015): Students, Computers and Learning. Making the Connection, OECD Publishing.

 

Ruzich E, Allison, C, Chakrabarti B, Smith P, Musto H, Ring H, et al. (2015) Sex and STEM Occupation Predict Autism-Spectrum Quotient (AQ) Scores in Half a Million People. PLoS ONE 10(10): e0141229.

 

Unesco (2019): Descifrar el código: la educación de las niñas y las mujeres en ciencias, tecnología, ingeniería y matemáticas (STEM).