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LGBTQ+ sobre o espectro do autismo

jun 28, 2023

Intersecção de identidades e discriminação múltipla

 

Pode haver tantas discriminações quanto identidades, e cada pessoa é resultado da sobreposição e entrelaçamento inseparáveis de múltiplas identidades diferentes. Na maioria dos casos, predominam as identidades mais problemáticas, aquelas que são notadas imediatamente de fora e são apontadas como diferentes, que não cumprem com os padrões ditados por uma cultura predominantemente normocêntrica.

 

A identidade que me fez sentir diferente desde a época de criança é aquela que pude nomear apenas mais tarde, já adulto: minha identidade neurodivergente. Ser autista, e não saber disso até chegar numa certa idade, significou viver com uma sensação constante de estar fora do lugar, de nunca entender completamente as regras de uma sociedade que às vezes parece funcionar de forma incompreensível. Ser autista, porém crescer como não-autista, sem entender por que havia tanta diferença em comparação aos colegas de escola, incapaz de evitar decepcionar constantemente as expectativas de minha família, dos conhecidos e daqueles poucos amigos que eu tinha, significava acreditar que eu era defeituoso e constantemente errado.

 

É curiosa essa questão da identidade, pois até que você consiga nomear certas características suas, por mais problemáticas que elas sejam na interação com nossa sociedade normocêntrica, tudo permanece nebuloso e vago. A dor também é nebulosa, até você descobrir de onde ela vem.

 

Quando, por outro lado, você nomeia alguma coisa, então ela passa a existir: ela ganha conotações claras, tornando-se menos aterrorizante e mais manejável. Ao mesmo tempo, este rótulo é resultado de um processo sistemático de exclusão que a maioria emprega constantemente em relação a qualquer pessoa percebida como diferente. O rótulo o discrimina, mas ao mesmo tempo ele também é um instrumento de luta e de reinvindicação de identidade e política.

 

O historiador científico Ian Hacking define o efeito looping como o fenômeno pelo qual, ao estudarmos uma característica, interagimos com ela modificando-a, acabando assim por criar uma nova categoria humana que, por sua vez, é modificada pela experiência das pessoas que a compõem. Antes de 1869, por exemplo, não existia a categoria de homossexualidade, mas sempre houve comportamentos que, dependendo da cultura, eram considerados mais ou menos aceitáveis. A homossexualidade foi considerada um transtorno psiquiátrico até 1973, quando foi eliminada do Manual Estatístico de Diagnóstico (o DSM, da sigla em inglês) da Associação Americana de Psiquiatria – principalmente devido à pressão dos grupos de ativistas e defensores de direitos homossexuais.

 

As categorias identitárias nunca são estáticas, pois estão sempre mudando, em definição contínua. Isso também vale para a intersecção, sobreposição de identidades e as discriminações que implicam sobre elas. A intersecção entre ser LGBTQIA+ e neurodivergente é bastante frequente.

Entre transgêneros há uma porcentagem de pessoas autistas superior à média, assim como a probabilidade de uma pessoa autista não ser heterossexual é extremamente alta (cerca de 69,7%, de acordo com estudos).

 

Penso que é difícil estabelecer as razões deste cruzamento, mas eu gostaria de focar na dupla exclusão que ocorre nesses casos. Uma pessoa autista possui um funcionamento social, sensorial e cognitivo diferente da maioria da população, incluindo a maioria das pessoas LGBTQIA+. Um indivíduo autista e que também seja não-heterossexual, não-binário, transgênero ou agênero, por sua vez, faz parte de uma minoria dentro de uma minoria.

 

A importância de reconhecer-se em um grupo é parte da função identitária do rótulo.

 

Para mim foi assim quando me dei conta de que a sensação de estar constantemente deslocado não se tratava de um defeito, mas que havia muitas outras pessoas autistas como eu. Meu funcionamento autista sempre me fez sentir excluído de uma série de dinâmicas sociais extremamente atraentes e fascinantes do universo LGBTQIA+ que muitas vezes senti como inacessíveis.

 

Para uma pessoa autista, o lado afetivo e de relacionamento pode ser difícil de gerenciar porque implica na interação com uma sociedade estruturada por e para pessoas não-autistas. Os métodos de abordagem, o não dito, a piscada ou as piadas, não são necessariamente compreendidos por que na raiz há uma falta de compreensão dos códigos comunicativos e sociais entre os dois grupos.

 

Como aproximar-se uma pessoa que você gosta? Como gerenciar uma relação duradoura, mas também uma aventura de uma noite? O que ocorre com o contato físico, que pode ser extremamente peculiar para uma pessoa autista? Como gerenciar a dinâmica social mesmo em aplicativos de encontro? E, novamente, como você julga uma pessoa que conversa com você sem nunca olhar nos olhos, ou que em situações de ansiedade começa a fazer uma série de movimentos estranhos e repetitivos com as mãos, ou a balançar na cadeira? Quão atraente se considera quem escolhe a roupa pelo conforto dos tecidos na pele, deixando a estética em segundo plano?

 

Apesar de estar particularmente presente, ainda se fala muito pouco sobre o funcionamento autista no universo LGBTQIA+. Porém até mesmo pessoas autistas possuem desejos e dúvidas, passam por dificuldades, necessitam de apoio ou simplesmente se sentem parte de uma comunidade com a qual pode compartilhar uma parte de seu próprio ser.

 

Um exemplo dessa dupla exclusão é representada pelo orgulho, momento de afirmação da própria identidade, mas também de encontro, troca e lazer. Contudo, o orgulho pode ser inacessível para uma pessoa neurodivergente em vários aspectos, desde o sensorial até o social e ao comunicativo, bem documentado por Simone Riflesso em seu SondaPride.

 

A discriminação e exclusão quase nunca se limitam a uma única face de nosso ser – isto é, apenas uma das nossas identidades. Frequentemente discriminamos ou excluímos involuntariamente aqueles que já vivenciam a exclusão, ampliando seu sentimento de exclusão e, às vezes, de desespero: excluídos entre excluídos. A sociedade deve ser capaz de garantir a coexistência de todas as diferenças, inclusive e sobretudo dentro de um mesmo grupo minoritário.

 

[O artigo original de Fabrizio Acanfora publicado na revista La Falla del Cassero pode ser encontrado neste link: https://lafalla.cassero.it/lgbtq-nello-spettro-autistico/]

 

Bibliografia:

George R, Stokes MA. Sexual Orientation in Autism Spectrum Disorder. Autism Res. 2018 Jan;11(1):133-141. doi: 10.1002/aur.1892. Epub 2017 Nov 21. PMID: 29159906.

Hacking, I. 1986. “Making Up People.” In Reconstructing Individualism, edited by T. Heller, M. Sosna, and D. Wellbery, 222–36. Stanford, CA: Stanford University Press.

Sondapride: https://simoneriflesso.com/sondapride/

Strang JF, Janssen A, Tishelman A, Leibowitz SF, Kenworthy L, McGuire JK, Edwards-Leeper L, Mazefsky CA, Rofey D, Bascom J, Caplan R, Gomez-Lobo V, Berg D,   Zaks Z, Wallace GL, Wimms H, Pine-Twaddell E, Shumer D, Register-Brown K, Sadikova E, Anthony LG. Revisiting the Link: Evidence of the Rates of Autism in Studies of Gender Diverse Individuals. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2018 Nov;57(11):885-887. doi: 10.1016/j.jaac.2018.04.023. PMID: 30392631.