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Interseccionalidade: compreender a complexidade das identidades humanas

jun 28, 2024

Por Montse Bizarro e Fabrizio Acanfora.

 

Em 1989, no artigo “Desmarginalizing the Intersection of Race and Sex“, Kimberlé Crenshaw introduziu o termo “interseccionalidade” para descrever como múltiplas identidades, como etnia, gênero e classe social, se sobrepõem criando experiências únicas de opressão, discriminação e privilégio. Sua critica se dirigía também ao movimento feminista, que muitas vezes ignorou os problemas específicos das mulheres racializadas, que enfrentam discriminação não só como mulheres, mas também como pessoas negras.

 

Esta reflexão nos leva a considerar como a nossa mente tende a dividir o mundo em categorias fechadas. É uma necessidade cognitiva, essencial para compreender a realidade. Contudo, as categorias criadas por esta necessidade não devem ser confundidas com a realidade, na qual se cruzam constantemente, sem tais limites definidos, tornando-se por vezes irreconhecíveis. Devemos reconhecer que as categorias são construções artificiais, simplificações; ignorar esta realidade prejudica qualquer discurso sobre a diversidade e impede a compreensão de uma realidade complexa. A diversidade é interseccional e fluida por natureza; não pode ser totalmente compreendida através de modelos rígidos que excluam aqueles que não se enquadram perfeitamente neles.

 

Para compreender a variabilidade que também caracteriza a nossa espécie, é fundamental evitar atribuir julgamentos morais às categorias humanas e observar a sua intersecção, a sobreposição, reconhecendo que uma pessoa pode pertencer a vários grupos ao mesmo tempo. Por exemplo, uma pessoa pode ser autista e homossexual, imigrante e negra.

 

Não considerar a interseccionalidade significa negar a complexidade da pessoa, reduzir a experiência humana a uma única dimensão, achatá-la. Este conceito não é exclusivo, não tira nada de ninguém nem exige o abandono da própria identidade. Pelo contrário, é uma forma mais precisa de descrever a realidade, é a procura de intersecções, e não de divisões.

 

Do ponto de vista social e político, o conceito de interseccionalidade é uma ferramenta fundamental para combater a discriminação, exigir igualdade de direitos e oportunidades, reduzir desvantagens, por um lado, e privilégios, por outro; é uma ferramenta para compreender os desequilíbrios de poder que estão na base da exclusão e das injustiças sociais e para promover uma sociedade mais justa para todos.

 

A interseccionalidade não é simplesmente uma opção, mas uma necessidade para compreender e respeitar a diversidade, a variedade humana na sua riqueza. Reconhecer e considerar as intersecções das nossas identidades e as opressões que muitas vezes delas surgem é o primeiro passo para um mundo em que cada pessoa possa expressar plenamente o seu ser dentro de uma comunidade que reconhece o valor da diferença.

 

Intersecção de diferentes opressões

 

Existem algumas discriminações específicas que estão intimamente relacionadas ao fato de ser autista. Isso não significa que todas as pessoas autistas sofram com eles, mas significa que há uma maior probabilidade de pertencer (temporariamente ou não) a uma dessas categorias oprimidas porque, tal como o mundo está configurado, as características autistas colidem constantemente com as demandas que não levam em conta o seu estilo de processamento, as suas diferentes formas de comunicar, a sua aprendizagem divergente ou a sua sensibilidade.

 

A opressão mais óbvia que as pessoas autistas recebem é o capacitismo; trata-se de discriminação contra as pessoas com deficiência. É um tipo de discriminação estrutural, sistêmica, muito mais frequente do que pensamos. Na verdade, é provável que em algum momento tenhamos tido alguma atitude capacitista sem estarmos conscientes disso, por exemplo, tratando um adulto com deficiência como se fosse uma criança. Realizamos muitos destes comportamentos com a melhor das intenções, mas eles contribuem para o paternalismo, subestimando capacidades e acompanhando pessoas de um lugar que não incentiva a sua própria agência.

 

As pessoas capacitistas muitas vezes consideram que a deficiência é um “erro”, algo que a pessoa deve reparar, esconder ou ignorar para melhor se integrar no mundo, em vez de assumí-la como uma consequência lógica da diversidade humana. Alguns exemplos capacitistas podem ser estereótipos prejudiciais, exclusão no emprego ou na educação, ou barreiras físicas ou cognitivas ao acesso a determinados espaços, entre muitos outros.

 

Por outro lado, as pessoas autistas apresentam frequentemente problemas de saúde mental, em grande parte devido a esta interação constante com um sistema capacitista e hostil. Os dados são esmagadores: sete em cada dez pessoas autistas [1] desenvolverão um distúrbio de saúde mental durante a sua vida, bem como elevados níveis de sofrimento psicológico. Os mais comuns são os transtornos de humor, com 57%, e os transtornos de ansiedade, com 54%, mas também podemos incluir maior prevalência de transtornos alimentares, fobia social ou transtorno obsessivo compulsivo.

 

Isto leva a uma maior probabilidade de sofrer de “cuerdismo”, um tipo de opressão estrutural contra as pessoas com problemas de saúde mental. O “cuerdismo” pressupõe a superioridade dos pensamentos, práticas e experiências das pessoas sãs sobre as dos loucos (NOTA: o próprio grupo se autodenomina “louco” para subverter o significado pejorativo que esta palavra sempre teve historicamente). Alguns exemplos comuns poderiam ser a invalidação da opinião de loucos, a associação da loucura ao perigo, a negligência médica (ao assumir que qualquer sintoma é sinônimo de ansiedade, sem levar em conta outras opções), a banalização do seu sofrimento, etc.

 

Por outro lado, temos visto alguns dados sobre formação e emprego. A presença de autistas em “fases pós-obrigatórias” de ensino é muito baixa [2]; 3% no ensino secundário, ou 4,57% nos ciclos formativos de Formação Profissional. Isto pode refletir situações “de abandono e insucesso escolar (…) do ESO ou de colocação em modalidades de educação especial”. Além de ter necessidades educativas específicas e necessitar de certos apoios e adaptações, este abandono escolar pode ser influenciado pelos “altos índices de bullying relatados [por estes alunos]”.

 

Portanto, existem muitos autistas com formação pouco qualificada, devido ao enorme número de barreiras que encontram na fase educacional. Isso pode levar alguns autistas, na vida adulta, a terem que aceitar empregos precários. Além disso, apenas 10% a 24% das pessoas autistas estão empregadas [3]. O que acontece com as outras pessoas que não conseguem um emprego ou mantê-lo? Muitos deles não têm independência econômica e/ou correm o risco de exclusão social. Parece que o sistema muitas vezes esquece que as crianças autistas um dia crescerão e se tornarão adultos que precisarão de apoio e acompanhamento.

 

Tudo isto pode levar a um maior risco de sofrer formas de discriminação como o elitismo, o classismo e até a aporofobia. O elitismo envolve considerar que os membros de uma pequena elite (por exemplo, estudantes universitários) merecem maior influência e consideração do que outros seres humanos. Por sua vez, o classismo consiste em oprimir outras pessoas por terem um nível educacional, uma posição econômica ou uma classe social considerada inferior pela classe dominante. E, finalmente, a aporofobia é a rejeição, aversão ou medo dos pobres ou desfavorecidos.

 

Até aqui revisamos as discriminações que se cruzam com o fato de ser autista. Mas, além disso, se você é uma pessoa racializada, pertence a uma religião minoritária, tem um corpo não normativo, é mulher ou pertence a uma identidade dissidente, entre tantas outras categorias, é mais provável que sofra diferentes tipos de discriminação. Por fim, devemos ter em mente que podemos pertencer a um grupo oprimido ou a mais de um, mas também podemos ter privilégios em relação a outras pessoas. E devemos nos desconstruir, nos rever constantemente e ouvir as experiências dos diferentes grupos em primeira pessoa.

 

Referências:

[1] Autismo España. (10 de outubro de 2017). Sete em cada 10 pessoas com TEA apresentam transtornos de saúde mental. Confederación Autismo España. Link: https://autismo.org.es/siete-de-cada-10-personas-con-tea-presenta-trastornos-de-salud-mental/

 

[2] Autismo España. (Agosto de 2020). Situação dos estudantes com transtorno do espectro do autismo na Espanha. Link: https://autismo.org.es/wp-content/uploads/2020/09/informeeducacion_situaciondelalumnadotea_0.pdf

 

[3] Autismo España. (27 de abril de 2021). Pessoas autistas são o grupo de pessoas com deficiência com maior taxa de desemprego. Link: https://autismo.org.es/las-personas-con-autismo-son-el-colectivo-de-la-discapacidad-con-la-tasa-mas/