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Em busca da empatia perdida

dez 2, 2022

O autismo se define clinicamente por uma série de características. Na terminologia médica e nos manuais clínicos, estas características são chamadas de “sintomas”, e se definem principalmente por déficits ou excessos: “Déficits persistentes na comunicação social e na interação social” ou “Interesses fixos bastante limitados que são considerados anormais em intensidade ou profundidade” [1]. O que muitas pessoas autistas gostariam que o mundo entendesse é que, em muitos casos, estamos tratando de diferenças, e que se algo é diferente daquilo que se convencionou, não quer dizer necessariamente que deva ser julgado como inferior ou defeituoso.

 

A empatia é uma destas características que, por um mal entendido bastante evidente, é dita ser deficiente em pessoas autistas – seguindo a narrativa que as pessoas não-autistas (ou neurotípicas) construíram a nosso respeito.

 

Há quase quatro décadas, os pesquisadores Simon Baron-Cohen e Uta Frith formularam a hipótese de que nós, autistas, possuímos um déficit na Teoria da Mente [2] (ToM, ou Theory of Mind, em inglês); isto é, que somos incapazes de atribuir estados mentais a nós mesmos e aos demais.

 

Esta ideia, que prejudicou a narrativa sobre o autismo ao estigmatizar ainda mais a comunidade, foi posteriormente deixada de lado pelo próprio Baron-Cohen, mas, sobretudo, foi desautorizada por vários pesquisadores, dentre os quais Morton Ann Gernsbacher [3] ou Damian Milton. Especificamente, Milton, um pesquisador autista, com seu Problema de Dupla Empatia [4] nos explica como as pessoas autistas não possuem déficit com a ToM, não carecem de empatia, mas sim que elas simplesmente utilizam outros parâmetros e códigos para analisar o comportamento dos outros, para inferir seus estados mentais e, em sequência, agir.

 

Na prática, entre autistas e entre não-autistas conversamos em dois idiomas diferentes, e enquanto não encontrarmos uma linguagem comum entre os dois grupos, a impressão que teremos é a de que não entenderemos uns aos outros. Vamos pensar em uma mulher italiana e um índio se comunicando, cada um em seu próprio idioma e sem conhecer uma palavra do outro. Obviamente eles não se entenderão, mas como essas duas pessoas estão na Itália (e a grande maioria da população de lá se comunica com a língua italiana), logo será o índio quem será a “minoria”, e portanto será considerado o estranho, será aquele que não entende.

 

É assim que ocorre entre pessoas autistas e pessoas neurotípicas: um curto-circuito na interpretação da linguagem, dos gestos, dos sinais não-verbais e das metáforas de um para o outro. Falta de compreensão de quais são as reações naturais de cada grupo frente a determinadas situações ou emoções, reações em parte determinadas também por diferenças na organização do sistema nervoso e, portanto, enraizadas na própria essência da pessoa – e não necessariamente na cultura da qual ela faz parte.

 

Se você vê um amigo chorando, uma reação normal provavelmente seria a de abraçá-lo para consolá-lo. Mas, e se o contato físico é extremamente difícil pra você, devido a uma série de diferenças sensoriais? E como você reagiria se, neste momento, você pensasse que para que seu amigo deixe de chorar, primeiro você deveria ajudá-lo a solucionar a causa de seu sofrimento? Então provavelmente você não o abraçará e, com a mesma probabilidade, tentará resolver o problema de forma racional.

 

Esta reação não será interpretada como empática porque, segundo a narrativa neurotípica, a única forma de demonstrar empatia para alguém que está sofrendo é, mais do que tudo, ter atitudes consoladoras. Porém, por trás da aparente frieza se esconde o desejo de fazer com que seu amigo pare de chorar – resolvendo a causa –, e a distância física poderia ser dada por outra modalidade sensorial. É só pensarmos que existem diferentes maneiras de se interagir sem precisar assumir que uma delas é errada apenas por ser menos conhecida.

 

Podemos estender este exemplo a todos os outros âmbitos do funcionamento humano e, com isso, falarmos não apenas de um “duplo padrão de empatia”, mas sim de um “duplo padrão de funcionamento”. Sendo bem direto, a lógica é muito óbvia: um sistema nervoso que se organiza de maneira diferente resultará em uma percepção diferente dos estímulos externos e internos do organismo do qual faz parte. Algo que é normal pra você pode se tornar insuportável para mim, ou um estímulo que é agradável para mim pode ser doloroso para você.

 

Ir de encontro ao outro, não tratarmos com tanta certeza que só a nossa maneira de ser é a única possível, e entender que aquilo que é diferente não significa que também é defeituoso… São estes os pontos de partida para criarmos uma sociedade em que cada pessoa tenha a oportunidade de expressar-se, de autodeterminar-se, de se conseguir um emprego ou educação de qualidade, de a pessoa ser ela mesma.

 

NOTAS:

[1] American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.).

[2] Baron-Cohen, S., Leslie, A. M., & Frith, U. (1985). Does the autistic child have a “theory of mind” ? Cognition, 21(1), 37–46. doi: 10.1016/0010-0277(85)90022-8

[3] Gernsbacher, M. A., & Yergeau, M. (2019). Empirical Failures of the Claim That Autistic People Lack a Theory of Mind. Archives of scientific psychology, 7(1), 102–118. doi:10.1037/arc0000067

[4] Milton, D. E. M. (2012). On the ontological status of autism: the “double empathy problem.” Disability & Society, 27(6), 883–887. doi:10.1080/09687599.2012.710008

(Fabrizio Acanfora, autista, responsável pela Comunicação e Relações Externas da Specialisterne Italia)